As organizadas e a violência expressiva
segunda-feira, abril 26th, 2010Até o início da década de 1990, no Brasil – e, até mais recentemente, na Bahia -, os amantes do futebol podiam orgulhar-se da convivência pacífica entre os torcedores, sobretudo quando comparado ao que acontecia no exterior.
Todavia, parece que as divertidas e inofensivas provocações verbais (quem não gosta de ouvir palavrões nem de ver gestos obscenos lançados contra os rivais, não deveria ir ao estádio), que dão aos torcedores motivos a mais para irem aos estádios, estão cedendo espaço à agressão física que não pode ser associada aos resultados obtidos pelos times no campo. Se a violência fosse fruto de tais resultados, apesar de absolutamente condenável, ela seria um pouco mais compreensível, mas ela parece estar vinculada a algo mais complexo: uma forma de expressão de indivíduos e grupos de jovens.
Mas, expressão de quê? Ninguém pode responder a isso com segurança, porque a violência expressiva, ao contrário da instrumental, não tem objeto e objetivo definidos pelos agentes de modo inequívoco e permanente; se se pode indicar algum objetivo mais duradouro da violência expressiva, esse seria o de ir além de sua experiência cotidiana, o que torna o problema mais complicado para ser resolvido, pois o que pode ser percebido pelos jovens como algo capaz de interromper a monotonia de seu dia-a-dia é muito variável.
Na Bahia, o caso de um torcedor baleado (no BaxVi , em 25.04/2010) é uma evidência de que não se está diante de uma briga entre torcedores por causa do resultado de uma partida. O deplorável incidente tem características de acertos de contas por razões outras, que nada tem a ver com o jogo de futebol em si, mas, sim, com a afirmação da identidade – construir e/ou manter a fama de “bad boy” -; com as disputas de “galeras” em bairros ou entre bairros; e com, sublinhe-se, o confronto pelo confronto.
Se a minha interpretação for pertinente, as autoridades públicas pouco podem fazer para resolver esse problema, como o atesta o fracasso das medidas que deveriam por fim às brigas entre os torcedores na Europa e, mais recentemente, em São Paulo. Quem de fato acredita que o fim das torcidas organizadas seria a solução? Apesar de medidas como essas terem sido tomadas na Europa, desde o início dos anos de 1980, quem não se lembra da Copa de 1998, quando a violência de alguns torcedores provocou uma situação desconfortável entre os governos alemão e francês?.
Na Europa como em São Paulo, as autoridades apenas conseguiram, e nem sempre, coibir os atritos dentro dos estádios. Mas, no dia da partida, os jovens dispõem da cidade inteira para expressar-se através da agressão física e de outras incivilidades, e o que menos importa para eles, no jogo da violência nas ruas, é o resultado do jogo que se desenrola no campo.
A sociedade alimenta a concepção de que o comportamento violento é sempre o produto de algum distúrbio psíquico ou de problemas socio-econômicos, e essa concepção é um entrave à compreensão do que acontece com os jovens que se digladiam nas ruas pelo que isso tem de sedutor aos olhos deles, ou seja, é hora de admitir-se que a ação violenta pode ser lúdica, atraente e sedutora em si mesma, e que algumas pessoas a ela se dedicam só por causa disso.
As estratégias e táticas policiais para conterem multidões e indivíduos/grupos agressivos devem ser adotadas, pois elas asseguram a tranqüilidade de outros torcedores dentro dos estádios e nas proximidades, mas elas não têm como lidar com os que querem confrontar-se entre si, não por causa de seus times, mas por razões de transcendência, a qual pode ser atingida pela agressão física, pela quebra das regras do jogo civilizado entre as pessoas, pela depredação de bens públicos e privados.
O desafio, portanto, é pensar o comportamento violento dos torcedores sob essa ótica, a da sedução, para que se possa enfrentar um desafio ainda maior: como solucionar essa questão.
Antonio Oliveira, leitor do Sempre Bahia.

